
Prezado Cidadão de Bem, desculpa interromper os próximos minutos na leitura deste texto. Antes de qualquer coisa, gostaria de saber como você está? Espero que tudo bem por aí.
José da Cruz é meu nome de nascimento, mas desde a pandemia não ouço mais ninguém me chamar desse jeito. Na verdade, as pessoas evitam falar comigo, têm medo de se aproximar de mim e da minha família. Quando a gente tenta alguma comunicação, tem quem vire a cara, as costas e nos transforme em pessoas invisíveis. Há também quem sinta nojo por causa do odor após dias sem um banho. Tem até quem cuspa pra não correr o risco de tragar as partículas do mesmo ar que respiramos.
Há também quem sinta pena, nos veja como coitadinhos e logo foge influenciado pelos títulos que recebemos da sociedade: marginais, ladrões, drogados, preguiçosos, vândalos...
Desde que minha esposa, meus dois filhos e eu passamos a morar nas ruas, esses acontecimentos viraram rotina e já nem sofremos tanto. A gente é expert na arte de ressignificar as dores, as coisas...
Isso serve também para tudo o que encontramos no lixo. Papelão, plástico a gente transforma em casa improvisada. É bem verdade que muitas vezes ela se desmancha em poucas horas de chuva.
A gente sempre agradece à Deus pelas sobras do jantar da sua família que são colocadas em sacos e do lixo alimentam a nossa família. Você não sabe como é satisfatório observar meus meninos pegando no sono sem reclamar da fome. É um respiro pra minha esposa também.
Na semana passada, vi você chegando em casa com àquele guarda-chuva, todo molhado. Logo depois voltou pra janela com um perfume que atravessava a rua de tão cheiroso que estava. Vi quando entregou a sua menina o presente e o momento que ela atirou a boneca sem cabeça, após meses de uso. Minha filha Gabriela, de 10 anos, também acompanhava a cena, eufórica, e foi muito ligeira. Assim que o corpo da boneca foi arrastado pela correnteza e alcançou nosso barraco, ela estendeu a mão e fisgou àquele corpo plástico, que horas depois ganhou um rosto feito de papelão e até foi batizado pelo nome de Lili (homenagem a uma amiga da época quando morávamos do outro lado da cidade).
A mesma água que trouxe Lili arrastava o único documento pelo esgoto até perder a vista na galeria subterrânea. Era a única prova da minha identidade, da minha cidadania. Agora, fiquei sem documento e sem o direito a dar entrada em um benefício social para comprar comida ou mesmo pagar um aluguel em um lugar mais digno.
Ouvi dizer, que no final do ano passado, o Brasil chegou a ter mais de 327 mil pessoas vivendo em situação parecida com o da minha família. Só passando por tudo isso pra compreender o quanto é difícil. Não há outra forma.
E são muitos os problemas do lado de cá. Banho na rua, por exemplo, é para nós artigo de luxo. Ontem, finalmente consegui tomar um no chafariz da praça. Aproveitei a saída da guarda municipal e o pouco movimento por lá. Depois vesti a roupa limpa, deixada horas antes por um taxista, e segui a procurar emprego outra vez.
Minha esposa estava na esquina terminando de aquecer as sobras da sopa, doada na noite anterior, em uma lata com leite em pó. Os pedaços de pão já eram devorados pelos meninos em mais um dia de café da manhã na calçada, aos olhos de quem passa.
Àquela cena me motivou a ter mais foco para buscar a nossa estabilidade financeira. Tive a sensação que seria o nosso último dia vivendo em situação de rua.
Durante horas, fui em vários estabelecimentos da região pedindo uma oportunidade e falando da minha experiência como administrador de supermercado e dos cursos feitos antes da pandemia. Dos cinco empresários, dois se interessaram pelo meu currículo, mas um detalhe destruiu minha esperança: não ter um endereço fixo.
Fui desclassificado e me doeu muito. Senti uma punhalada no peito e, longe da visão da minha família, chorei feito um bezerro desgarrado, gritei e até xinguei à Deus. Logo pedi perdão, é verdade, e voltei para o seio dos meus, agora sem saber o que teríamos para o almoço.
Passou o dia... E para minha surpresa, tivemos comida nas três refeições (coisa rara por aqui). Houve até cobertor quentinho na noite fria de inverno.
Na vida de gente como a gente é sempre assim, altos e baixos, além de muitas incertezas. Só uma coisa não pode nos falta: fé na vida e principalmente em Deus. É a Ele que peço todos os dias para manter minha sanidade mental, mesmo diante de tanta dificuldade para ter coisas simples, como o desejo de um copo d'água; ou mesmo sentir a necessidade de ir ao banheiro e ter apenas duas opções: fazer nas calças ou na calçada mesmo. No dia seguinte, é comum receber ameaças e reclamações da vizinhança, dos comerciantes e até mesmo de quem está de passagem.
Se fosse só por mim, até que não ligaria tanto, mas sabe o que é criar dois filhos em meio a tudo isso?
Desculpa o meu desabafo, você nada tem a ver com isso. Muito obrigado pela atenção de agora. Não sabe como sua escuta me faz bem. Por essas bandas, a indiferença é só uma entre as inúmeras ameaças. Vai lá, segue a sua luta, que sigo também na minha por aqui.
Ah! Agradeça a sua menina pelo presente, que mesmo sem saber, todos os dias embala os sonhos da minha família. Na imaginação pueril, Gabriela brinca de viver em uma casa com três quartos, uma para minha esposa e eu, outro para o irmão dela e mais um para ela e Lili. A realidade é apenas uma cama de cimento!
(*Anderson Barbosa, jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe e idealizador do Projeto Que Vem das Ruas)
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